Sexta-Feira Santa: A Paixão de Cristo


Pe. Felipe Cardoso

 

Todo cristão católico que vive sensivelmente ligado ao tempo litúrgico percebe como algo diferente a aproximação do tríduo pascal. Enquanto muitas pessoas não distinguem esses dias de outros “feriados religiosos”, o bom cristão católico nota algo particularmente diferente nestes dias, poderíamos dizer, quase que “no ar”.

Os mais antigos eram bastante sensíveis a essas datas. A Sexta-feira Santa, A grande Sexta-feira, era por si só um dia solene. Calmaria absoluta, rádio e televisores desligados, jejuns, procissões, a fé notavelmente pública.

É sim, diferente! Mesmo que este dia possua a duração igual ao de todos os dias, com suas 24 horas, quem sabe o que este dia significa vive-o em um ritmo diferente.  A Sexta feira Santa abrindo o tríduo nos põe na marcha de um outro tempo.

Jesus Cristo é homem histórico. Ao entrar no tempo Jesus santifica o tempo. A nossa medida humana, nossa contagem de dias, não será mais a mesma, pois será profundamente marcada pela presença do Filho do Homem.

Na natureza as coisas todas se sucedem: Dia e noite; trevas e luz; vida e morte… O ciclo, a alternância parece ser o horizonte natural do homem. De fato, parece que o tempo é o único senhor. Os homens vivem enfadados de rotina esperando a libertação, ou alguma libertação. Das férias, o descanso, um fim de semana, ou… de um “feriado religioso”. Pelo tempo e no tempo se submetem.

Jesus Cristo é Senhor! Do tempo, da história, da vida e da morte! Ninguém tira a sua vida, ele a entrega livremente (Jo 12, 24)!

Contemplar a sua paixão é contemplar ele realizando uma liturgia de santidade em sua vida, em seu corpo. Cumprindo as escrituras, toda ela, cumprindo a vontade do Pai, amando os homens em um único ato.

A Sexta-feira não é um simples auto de piedade. Verdadeiramente, é um mistério imenso que contemplamos. De fato, é o julgamento deste mundo (Jo 12, 32)! Não importa quantas vezes tenhamos visto, ouvido, vivido a Paixão de Cristo é sempre nova e dramática, porque sabemos que por ela passa a nossa própria sorte.

A liturgia em si, deste dia, é muito rica de sinais. São sinais preclaros que talvez não demandem tanta explicação. O silêncio, o altar desnudado, as imagens cobertas, a cruz. Este silêncio tão grave e que estranhamente nos fala.

A via sacra também é sempre um momento alto, mas não esgota em ser uma simples representação.  É também um momento de oração e de meditação.

Talvez seja inevitável em algum momento a emoção, o sentimento. Porém, a grandeza deste dia não reside só no sentimento. Jesus Cristo, as mulheres que O pranteavam pelo caminho do Calvário disse que não O chorassem. Chorassem antes por elas e por seus filhos (Lc 23, 28-46). Jesus Cristo sabe que volta ao Pai e a nossa sorte caminha naquele momento com Ele. Tal olhar de fé embora não exclua o sentimento convida sempre a ultrapassá-lo.

Saiamos atrás dele. “Saiamos, portanto, ao seu encontro fora do acampamento, carregando a sua humilhação. Porque não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura da cidade que está para vir (Hb 13-13-14)”.

Este dia, por fim, é cheio também de esperança. Cristo é igual semente depositada na terra. Nós podemos dizer que celebramos este dia. Não porque o festejemos, mas porque há uma continuidade entre a paixão, a descida aos infernos e a ressurreição. De tal modo que a celebração é um contínuo que culmina no domingo da Páscoa.

Assim, belamente o expressou o poeta Francis Jammes seu desejo de estar ao lado Cristo em sua dor:

Responde-me, Senhor: Que queres de mim?

– Oh meu filho querido, necessito tuas lágrimas. Necessito um pássaro que cante sobre a cruz,

– Senhor, desde tua fronte, cingida por um ramo de espinhos, irei cantando durante tua agonia;
mas quando floresça a terrível coroa,
Deixarás, de verdade, fazer ali o meu ninho?

Pe. Felipe Cardoso

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